Sejam Benvindos(as)...


"Para conocer la noche...hay que apagar las estrellas." (Tomas
Castro)

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"Tu eras uma ausência que se demorava; uma despedida pronta a cumprir-se". (Cecilia Meireles)

"Sou assombrada pelos meus fantasmas, pelo que é mítico e fantástico - a vida é sobrenatural. E eu caminho em corda bamba até o limite de meu sonho. As vísceras torturadas pela voluptuosidade me guiam, fúria dos impulsos. Antes de me organizar, tenho que me desorganizar internamente. Para experimentar o primeiro e passageiro estado primário de liberdade. Da liberdade de errar, cair e levantar-me." (Clarice Lispector)

 

haverá sempre um poema inacabado
apedrejando minha memória
nas claras noites
que você abriu
no escuro do meu peito"

(Eliane Malpighi)

"Para tua fome

Eu teria colocado meu coração
Entre os ciprestes e o cedro

E tu o encontrarias
Na tua ronda de luta e incoesão:
A ronda que te persegues.

Para a tua sede
As nascentes da infância:
Um molhado de fadas e sorvetes.

E abriria em mim mesma
Uma nova ferida

Para tua vida."

Hilda Hilst


 

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Esta noite

Maria do Rosário Pereira

Esta noite o vento ceifa os bosques e
uma raiva sacode a terra. Se a voz
do mar chamasse pelas velas, os estreitos
aguardariam um naufrágio. E se dissesses
o meu nome eu morreria de amor.
Devo, por isso, afastar-me de ti – não
por ter medo de morrer (que é de já não
o ter que tenho medo), mas porque a chuva
que devora as esquinas é a única canção
que se ouve esta noite sobre o teu silêncio.

Poema do amor-perfeito

Cecília Meireles

Naquela nuvem, naquela,
mando-te meu pensamento:
que Deus se ocupe do vento.
Os sonhos foram sonhados,
e o padecimento aceito.
E onde estás, Amor-Perfeito?
Imensos jardins da insônia,
de um olhar de despedida
deram flor por toda a vida.
Ai de mim que sobrevivo
sem o coração no peito.
E onde estás, Amor-Perfeito?
Longe, longe, atrás do oceano
que nos meus olhos se aleita,
entre pálpebras de areia...
Longe, longe... Deus te guarde
sobre o seu lado direito,
como eu te guardava do outro,
noite e dia, Amor-Perfeito.

 

Recordação

Cecília Meireles

Agora, o cheiro áspero das flores
leva-me os olhos por dentro de suas pétalas.
Eram assim teus cabelos;
tuas pestanas eram assim, finas e curvas.
As pedras limosas, por onde a tarde ia aderindo,
tinham a mesma exaltação de água secreta,
de talos molhados, de pólen,
de sepulcro e de ressurreição.
E as borboletas sem voz
dançavam assim veludosamente.
Restitui-te na minha memória, por dentro das flores!
Deixa virem teus olhos, como besouros de ónix,
tua boca de malmequer orvalhado,
e aquelas tuas mãos dos inconsoláveis mistérios,
com suas estrelas e cruzes,
e muitas coisas tão estranhamente escritas
nas suas nervuras nítidas de folha,
- e incompreensíveis, incompreensíveis.

Arranco o amado distante do meu corpo e me liberto da
dor da ausência ou deixo que sua luz, tão forte quanto rara,
me alimente os sonhos de calor? (
Léa Waider)

*

... Como posso viver longe de ti...
Como posso acender um candeeiro senão para te ver?
Como posso fitar uma parede por onde não perpassa a tua sombra?
... Como hei-de abrir uma porta se não for para ir ter contigo?
Como hei-de atravessar uma soleira se não for para te encontrar?
Não, não podia viver longe de ti...
Dá-me a tua boca por um momento...(
Tasos Leivaditis, Tradução de Manuel Resende)

*

...La poesía es como el viento,
o como el fuego, o como el mar.
Hace vibrar árboles, ropas,
abrasa espigas, hojas secas,
acuna en su oleaje
los objetos que duermen en la playa..."(
José Hierro)

Modo de amar
Astrid Cabral

Amor como tremor de terra
abalando montanhas e minérios
nas entranhas da minha carne.
Amor como relâmpagos e sóis
inaugurando auroras
ou ateando faíscas e incêndios
nas trevas da minha noite.
Amor como açudes sangrando
ou caudais tempestades
despencando dilúvios.
E não me falem de ruínas
nem de cinzas, nem de lama.

*

Vem cá! Assim, verticalmente!
Achega-te... Docemente...
Vou olhar-te... E, no teu olhar, colher
promessas do que quero prometer,
até à síncope do amor na alma!
Colemos as mãos, palma a palma!
A minha boca na tua, sem beijo...
Desejo-te até o desejo
se queixar que dói.

E sou tua, assim, como nenhuma foi!

(Caminhos Frios
Leonor de Almeida, 1947, Portugal)

*

Como eu não possuo


Como eu desejo a que ali vai na rua,
tão ágil, tão agreste, tão de amor...
Como eu quisera emaranhá-la nua,
bebê-la em espasmos de harmonia e cor!...

Desejo errado... Se eu a tivera um dia,
toda sem véus, a carne estilizada
sob o meu corpo arfando transbordada,
nem mesmo assim - ó ânsia - eu a teria...

Eu vibraria só agonizante
sobre o seu corpo de êxtases dourados,
se fosse aqueles seios transtornados,
se fosse aquele sexo aglutinante...

De embate ao meu amor todo me ruo,
e vejo-me em destroço até vencendo:
é que eu teria só, sentindo e sendo
aquilo que estrebucho e não possuo.

(Dispersão
Mário de Sá-Carneiro, 1914, Portugal)

*

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  Serei Mulher

 
  Serei anjo descido do pedestral
  largando as asas brancas
  Macias, castas e ramificadas num céu
  Para cairem no chão estático e racional
  Deixarei o paraíso para ser mulher
  Feliz, sentida, amada ou sofrida... não importa.
  Serei mulher para sentir o contorno do teu corpo
  O sopro do suspiro que confessas
  O risco que abraças e enlaças em mim
  Serei anjo descido do pedestral
  Caminharei na tua direcção
  Tomarei no coração as dores do mundo
  Para as gritar
  Libertar, aconchegar... e perdoar.
  Serei anjo descido no céu
  E serei mulher só para ti


  Ana
 
http://avalonana.blogspot.com

  

    Sonhos de névoa


    Acordo com o sabor da noite nos lábios
    vejo-me gata em telhado de zinco quente
    ainda no reflexo da manhã em desalinho
    desenho um rectângulo em branco no meu espelho
    onde te desejo igual a mim
    Com o dedo desenho no vidro
    o contorno do meu corpo
    com os lábios em surdina te nomeio
    o reflexo brilhante devolve-me o desejo
    surdo.. mudo.
    Preciso de uma fotografia tua
    Preciso das palavras feitas de sombras e linhas.
    Faço então a viagem necessária até à tua janela,
    com o rio ao fundo
    onde posas vaidosa.
    Na tua janela
    onde me despes lentamente
    onde beijas de olhos abertos o desenho
    dos meu contornos
    onde beijas de olhos claros
    o gemido das minha cores.
    Na tua janela
    Recriamos o amor dos corpos reconhecidos
    Reinventamos os sons do comboio aqui tão perto
    Saboreamos os dias perdidos…
    E enchemo-nos de azul….
    Com o rio ao fundo.
    Lá ao fundo….
    da tua janela


    por LolaViola
   
http://levementerotico.blogspot.com/

 

  Princípio
  
  E ele nu na lividez dos lençóis
  Completamente nu
  Despudoradamente nu.
  E ela reverente ante a nudez
  Venerando-o
  Contemplativa
  Sôfrega de pele
  Gulosa de corpo.
  Falou-lhe numa língua feita de gestos
  Cheiros e sabores.
  E a língua era a língua que falava
  E a língua era língua que criava
  E despertava novas palavras
  Novos odores
  Novos cheiros
  Novos sabores.
  E ele quieto de tão vivo
  Quieto de tão atento
  Ansioso de ouvir
  Ávido de saber.
  Despudoradamente nu
  Deslumbrantemente corpo.
  Beijou dele o nome antes de o beijar
  Enrolou-o na boca
  E deu-lho.
  E dando-lhe o nome tornou-o eterno
  Nova palavra
  Novo verbo
  Razão
  E princípio.


  ... de Encandescente

Um lindo domingo e linda semana...bjus



- Postado por: Lali